ESTÓRIAS...

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quarta-feira, 20 de junho de 2012

VIDAS

O DIA DA DECISÃO


Quando entrei naquele ônibus, tive uma sensação estranha.  Sem querer ganhei a liberdade.
Estava muito quente naquela manhã de sexta-feira e o ano era 1979, mas dentro de mim havia um frio tenebroso. Eu estava indo embora de minha cidade e pensava em nunca mais retornar ali. Eu estava num misto de sentimentos, ora sentia tristeza e ora sentia alegria. Tudo era tão confuso em minha mente e meu peito doía, parecia que eu havia levado um soco no peito. Porque eu fui me meter em tanta confusão, agora estava sozinha, teria que aprender a sobreviver fora de casa.

Entrei no ônibus que partiria para São Paulo. Eu, uma menina de dezessete anos, embarcando sozinha para uma cidade grande. Eu, que nunca saía de casa sozinha, eu que era bem cuidada por mamãe. Agora, estava ali. Uns trocados na bolsa e um endereço de uma velha tia.

Uma semana antes meu padrasto havia brigado comigo. Se eu falasse o que sabia ele me daria uma surra. Então fugi de casa para não conviver com mentiras. Minha mãe sempre me protegeu. Ela se submeteu a um casamento de conveniências, mas eu sabia que aquele seu maldito marido era uma criatura falsa. Um dia, não suportei e disse para minha mãe coisas que estavam me sufocando. Eu sabia que aquele seu marido mantinha uma vida dupla. Ele era um homem muito estranho.


A DESCOBERTA

Oito meses antes de minha partida aconteceu algo assim.

Eu estudava em um bom colégio, tinha uma vida muito boa. Certo dia, meu padrasto foi me buscar no colégio. Ele me apanhou na porta, e fomos em seu carro para um bairro distante. Ele parou o carro e disse para eu esperar um pouco, ele entrou em uma casa bonita, eu comecei a ouvir uns gritos que vinha de lá de um dos quartos da casa. Eu ouvia a voz de uma mulher que dizia palavrões e fazia ameaças dizendo assim: Eu vou contar tudo para sua esposa. Uma voz de homem respondeu: Faça isso, e eu te arrebento!
Eu fiquei com muito medo e comecei a tremer. Nesse momento o meu padrasto apareceu, entrou no carro e fomos embora.

Antes de entrarmos em casa, meu padrasto me disse assim: Não fale nada para sua mãe. Aquela casa é de uma prima distante que eu não quero que tenha contato com vocês.
Eu respondi que não falaria nada pra ninguém.

No entanto, aquilo mexeu comigo. Aquela casa era muito estranha. Desconfiei de uma coisa que se confirmou depois.

Eu tinha um amigo que me ajudava nas lições de casa e era um cara muito especial, a gente conversava sobre tudo. Falei com ele do episódio. Ele disse que iria verificar que lugar era aquele.
E foi o que ele fez. Foi até o local e conferiu que ali morava um casal - um homem de trinta anos, mais ou menos e uma mulher de uns trinta e cinco ou quarenta anos. Durante vários dias o meu amigo ficou rondando o local, descobriu que meu padrasto frequentava aquela casa. Ele costumava ir lá durante alguns dias da semana. O pior ainda estava por vir...

Comecei a lembrar da vida que tínhamos. Meu padrasto era muito metódico e minha mãe era muito obediente, ela nunca o desagradava. Ele tinha o hábito de sair três vezes na semana durante à noite, dizia que ia jogar cartas com os amigos.
Eu nunca o vi beijar minha mãe. Ele era ríspido, nunca manifestava carinho por ela e nem por mim. E como ficava em silêncio! Ele quase não falava conosco, era tudo muito estranho.

O CASAMENTO DE MINHA MÃE

Quando eu nasci, fazia três meses que meu pai havia falecido. Até os meus seis anos de idade, eu e minha mãe vivemos na casa de meus avós maternos. Minha mãe conheceu meu padrasto em uma festa de casamento de uma prima dela. Ela me contou que ele se aproximou dela na festa, e perguntou se ela queria dançar, ela disse que sim, então dançaram duas músicas, depois mamãe se despediu dele e foi pra casa com uma amiga. No caminho essa amiga perguntava se mamãe não tinha vontade de se casar novamente, ela respondeu que sim, e que gostou de ter dançado com aquele homem na festa.
Passado uns dias, mamãe encontrou novamente aquele homem, conversaram e a partir daí começaram a se ver com frequência, até que um dia após oito meses de convívio ele a pede em casamento, então, ela aceita. Ele dizia que não havia problema nenhum o fato de minha mãe ter uma filha.
Eles se casaram em um sábado, em uma capela com poucos convidados. Minha mãe com trinta e dois anos e meu padrasto com quarenta e um. Depois de seis meses de casamento nós nos mudamos para outra cidade. Eu senti muito, durante meses fiquei triste, porque tinha saudades de meus avós. Cheguei a ficar doente, então pude ver o lado sombrio de meu padrasto.
Certo dia, amanheci com febre alta, mamãe ficou apavorada e quis me levar ao médico com rapidez, lembro que meu padrasto falou bravo com ela. Ele disse: Essa menina é muito enjoada, está sempre reclamando. De hoje em diante eu quero que você pare de mimar sua filha.  Minha mãe ficou parada olhando e com medo. Então ela foi à cozinha e preparou um chá de erva doce, depois ela levou para que eu tomasse, tomei. Comecei a me sentir bem, mas mesmo assim minha mãe me levou ao médico. O médico disse que eu estava com faringite.
A partir daquele dia eu comecei a ver meu padrasto com outros olhos.

A ROTINA

Eu e minha mãe vivíamos uma rotina de trabalho e estudos. Minha mãe preparava as refeições que sempre deveriam estar prontas assim que meu padrasto botasse os pés dentro de casa, se algum dia minha mãe atrasasse, era motivo de brigas e agressões verbais por parte dele.
Minha mãe, coitada, ficava de cabeça baixa sem responder nada, às vezes eu tinha vontade de gritar com ele, mas ficava com muito medo. E se ele fizesse mal para a minha mãe. Eu tinha muito medo dele bater nela. Eu ajudava minha mãe em tudo, e estudava muito. Ela dizia que eu precisava ficar boa em matemática e português, além de saber cozinhar, minha mãe era uma artista, ela fazia belos vasos de cerâmica e me ensinou.
Nós só saíamos para ir à igreja aos domingos, nunca íamos em festas e nunca recebíamos visitas, meu padrasto dizia que não gostava de contato com outras pessoas, então minha mãe obedecia.
Às vezes dávamos uma fugida para irmos ao cinema, geralmente quando ele viajava a negócios. Também íamos à casa de dona Alice, uma amiga de minha mãe.
Era tudo muito rígido e cada dia ficava pior.
Minha mãe vivia triste e eu não podia fazer nada. A vida corria assim, sem grandes mudanças.

A VIDA DUPLA DE MEU PADRASTO

Antes de decidir ir embora para São Paulo, constatei que meu padrasto mantinha um romance com um homem. Não sabia o que fazer, fiquei tão mal que adoeci, mas tinha que fazer algo e fiz. Eu sabia que meu padrasto ficaria furioso, foi aí que tive a idéia de escrever uma carta anônima para várias pessoas dizendo sobre a vida dupla de meu padrasto. A repercussão não foi nada boa, e por isso mesmo eu tive que partir para longe. Minha mãe depois de um tempo também resolveu criar coragem e abandonar meu padrasto, afinal de contas, ele mentia e oprimia uma pessoa que só tinha por ele muito medo e aflição. Quanto ao meu padrasto, bem, ele tentou se safar dizendo que eu e minha mãe estávamos loucas e por isso inventamos uma estória maluca. Soube que ele arranjou uma viagem de negócios para um país distante. Eu e minha mãe nunca mais o vimos.

EM SÃO PAULO

Quando cheguei em São Paulo, foi muito difícil de me sentir ali naquela cidade, era tudo tão diferente. Passei alguns perrengues, não foi nada fácil viver com a tia de minha mãe. Tive que arrumar um emprego, o que me salvou é que eu sabia escrever muito bem, isso me ajudou a arrumar um emprego razoável, mas o local era no centro da cidade, eu tinha muito medo das pessoas que andavam por lá. Quando minha mãe veio morar conosco, foi um alívio, por uns meses ainda moramos com a tia de minha mãe, mas assim que deu, eu e minha mãe alugamos um pequeno apartamento. Minha mãe arrumou um bom emprego em um atelier de artes, com o tempo ela conseguiu montar seu próprio negócio. Eu me formei em arquitetura. Mas o bom mesmo é poder lembrar que tivemos coragem para mudar o rumo de nossas vidas.


Essa estória é baseada em fatos reais que me contaram.

lita duarte