ESTÓRIAS...

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

A BIKE NOVA


Pegamos nossas bicicletas e saímos numa disparada só. Queríamos voar pedalando naquelas magrelas velhas e destruídas por tantos abalos. Descemos a rua e saltamos sobre os obstáculos que impediam a passagem dos pedestres, ouvimos alguém gritar: Seus malucos! Vocês querem se arrebentar no chão!

Todos os dias era assim, eu e Marcão íamos cedo para o colégio, ele estava no primeiro colegial e eu no segundo, a gente se dava muito bem, tínhamos os mesmos gostos. Ele morava no mesmo bairro que eu. Assim que chegávamos do colégio, cada qual na sua casa fazia o que tinha que fazer para ficar livre e poder sair. E assim que dava para sair eu dizia pra minha mãe: Mãe, já acabei o meu serviço e minhas lições, vou sair pra dar uns roles de bike. Minha mãe ficava muito brava e dizia: Todo dia é isso! Menina, você precisa fazer outras coisas, desse jeito não dá! Olha para seus braços e pernas, você acha bonito uma moça cheia de marcas no corpo! Fica fazendo loucuras com essa bicicleta! Tomara que aquela vaga de estagiária saia logo, assim você vai trabalhar no escritório da tecelagem, e aí sim eu vou gostar.

Eu e Marcão tínhamos dezesseis anos, a gente estava descobrindo o mundo, a gente queria trabalhar e vivíamos preenchendo fichas em todas as empresas que nos indicavam. Enquanto esse dia não chegava, a gente se divertia muito fazendo muitas estrepolias com nossas magrelas.

A gente costumava se encontrar na rua em frente uma praça, de lá seguíamos por muitas ruas e avenidas até chegarmos em um terreno cheio de obstáculos, lá ficávamos horas “pulando com nossas bikes”, era prazeroso fazer aquilo, a gente não pensava em nada, nem mesmo na hora que a gente se machucava, nem sentia, só depois quando a coisa esfriava, então alguns machucados doíam demais, eu nem reclamava quando chegava em casa, senão minha mãe começava a pegar no meu pé e repetir a mesma coisa de sempre.

O Marcão era muito louco, fazia umas coisas que eu não topava, algumas vezes ele quase foi atropelado por ser tão destemido. Seus pais também viviam pegando no pé dele, diziam que ele precisava tomar juízo e parar de fazer loucuras.

Um dia, eu estava em casa me preparando para sair, nesse momento o carteiro chegou, ele trazia algumas contas e uma carta especialmente pra mim. Quando abri, li com muita atenção. Corri e mostrei pra minha mãe. Ela deu um sorriso enorme e falou: Que coisa boa, agora você vai trabalhar e vai aposentar a bicicleta. Olhei pra minha mãe e disse: Que nada! Com o dinheiro que vou receber vou comprar uma bike nova.

lita duarte