ESTÓRIAS...

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O VELHO E A CAIXA

Da primeira vez em que o vi, ele foi falando: É, minha filha não se espante, sou eu sim, aquele moço das novelas, tá certo que agora pareço um monte de ossos, mas já fui muito bonito, eu era muito querido. Agora estou aqui nessa casa de repouso, graças ao coração de meu sobrinho, tá certo que ele só me visita duas vezes por ano, mas ele paga todas as despesas desse lugar, incluindo médicos tratamentos e tudo mais, ele nem era um sobrinho para quem eu dava atenção, na verdade, eu mal o conhecia, é, mas o garoto tem bom coração, cuida desse tio aqui.

Eu olhei para o homem que não parava de falar e disse olhando para o braço direito dele, que estava enfaixado: O que aconteceu com o senhor? Seu braço está enfaixado por quê? Eu vim aqui para que o senhor pudesse fazer atividades artísticas, mas com o braço nesse estado, acho que não vai dar.

Ele respondeu: Não filha, eu consigo movimentar o braço esquerdo, embora não seja canhoto, mas quero muito começar uma atividade nova, ficar aqui sem fazer nada é muito chato.

Olhei para ele e me apresentei, disse que iríamos trabalhar com desenhos livres, perguntei a ele qual era seu nome, então, ele começou falando quem era e as coisas que fez, de como foi bom ter trabalhado na TV e no Cinema, mas que infelizmente gastou todo o dinheiro que ganhou com mulheres e outros vícios, era engraçado ouvir aquela voz forte em um corpo frágil, embora ele estivesse se sentindo só, fazia um esforço danado para provar o contrário. Ele me falou de seus filmes e suas novelas, de como era assediado pelas mulheres, mas hoje em dia, só mesmo enfermeiras e pessoas voluntárias que apareciam ali para se comunicar com ele, mas ele dizia que ainda queria poder ter um pouco de saúde para poder sair sozinho pelas ruas.


Uma vez por semana eu ia visitar o “velho falante”. Na verdade, era muito bom o convívio com ele, pois, ele falava e falava... eu só ouvia e dizia para ele pintar os desenhos que fazíamos juntos, era uma atividade recreativa, portanto, o mais importante era que ele pudesse se distrair. Quando eu ia embora ele dizia: Você podia vir todos os dias, fico torcendo para que a semana passe logo, só para te ver de novo. Nem ligo para os desenhos, gosto de ter companhia, mas nessa idade e nesse estado, ninguém quer saber de mim, só mesmo alguém como você.

Então eu dizia: Que nada, hoje em dia, as pessoas andam com suas vidas muito agitadas, às vezes falta tempo para visitar os parentes e amigos. Então, o velho olhava pra mim e sorria. Eu dizia até logo e dava um beijo na testa dele e ia embora.


Certo dia, ao chegar para o trabalho com ele, não o encontrei, e recebi a notícia de que ele havia falecido. Perguntei porque não me avisaram do ocorrido, disseram que tentaram, mas não conseguiram. Uma das enfermeiras ouviu a conversa que eu estava tendo com o responsável pela casa de repouso, disse que o velho havia deixado um presente pra mim, foram buscar, e me entregaram um caixa enorme, fiquei surpresa com aquilo, e minha vontade era de abrir logo e ver o que havia lá dentro, mas achei melhor levar para casa, só iria ver o que era o presente quando chegasse em casa, pensei: um presente precisa ser apreciado com calma, mas eu estava muito curiosa, todos que estavam ali comigo também queriam ver o que era o tal presente.


Fui para casa, chegando lá, abri com muita calma aquela caixa. Não acreditei no que vi!


Continua...


lita duarte