ESTÓRIAS...

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terça-feira, 11 de outubro de 2011

CABEÇA DE JAVALI

Quando abri aquela caixa, achei muito estranho o que vi. Lá dentro olhando pra mim, havia uma cabeça de javali embalsamada, e também um diário feito em um caderno com uma capa de couro de cobra.

Pensei: Nossa, o velho era estranho! Confesso que tive vontade de jogar aquela cabeça fora, já o diário me interessou muito, dei uma lida em algumas páginas e fiquei curiosa. Abri em uma página que dizia assim: Como foi terrível trabalhar com aquela atriz loiríssima, linda, mas com um mau hálito! Não aguentei, tive que pedir para que ela chupasse umas balas de hortelã que eu mesmo levava pra ela. Nunca entendi uma mulher linda com mau hálito, me deixava de mau humor, aquilo era terrível demais. Sentia um arrepio só de pensar que tinha de beijá-la. Não havia jeito, em nome da arte me submetia ao sacrifício.


Resolvi guardar a cabeça de javali, o diário do velho, eu ia lendo e descobrindo coisas muito loucas, aquele homem era muito doido, ele saiu de casa com dezoito anos, ele morava em João Pessoa – Paraíba, um dia resolveu que ia embora para São Paulo, não queria ser como seu pai, um militar. Um dia, ele sismou e se mandou, deixou uma carta para sua mãe dizendo assim: Mãe, vou embora daqui, não sei se volto, não fique triste comigo, já sou um homem, quero ver outras coisas por aí, não aguento meu pai e nem esse lugar. Fica em paz. Ele partiu e só voltou para visitar sua mãe quando estava com trinta anos.


Outro dia, recebi um telefonema, era o sobrinho do velho, ele queria saber se o seu tio havia deixado alguma coisa pra mim, eu disse que sim e que ele havia deixado uma cabeça de javali embalsamada, então ele respondeu: Meu tio devia ser maluco, isso é coisa que se deixa para alguém. Eu respondi: Se você quiser pode vir buscar. Ele disse: Não, eu queria o diário de meu tio, eu sei que ele tinha um. Ele não falou para você que tinha um diário? Respondi: Não, ele nunca me falou em diário. E era verdade, o velho nunca me falou sobre o diário. Então, o sobrinho do velho disse um até logo e desligou o telefone. Fiquei pensando, entrego ou não entrego o diário para o sobrinho do velho.


Como resolvi não entregar o diário para o sobrinho do velho, continuei lendo. Certo dia, abri em uma página que dizia assim: Odiei ter ido caçar javalis só para agradar o pai daquela ingrata. Ela fingia o tempo todo que gostava de mim, mas só queria me usar. Vou guardar suas jóias dentro da cabeça de javali que recebi de presente de seu pai, nunca mais aquela infeliz vai encontrar o precioso tesouro que tanto gosta. Não tive dúvida, corri e peguei a cabeça de javali e remexi dentro dela, mas não encontrei nada, pensei: Alguém deve ter tirado as jóias daqui, acho que foi o sobrinho do velho, melhor assim. Guardei a cabeça do javali no fundo de um armário e fui cuidar da minha vida.


lita duarte