ESTÓRIAS...

ESTÓRIAS...

terça-feira, 17 de maio de 2011

UMA VIDA... UMA HISTÓRIA

Quando minha mãe adoeceu, ela se sentiu na obrigação de me revelar fatos de nossas vidas, os quais ela nunca havia pensado em me contar. Penso que sua doença lhe causou tanta transformação, por isso a revelação de fatos relacionados a minha vida vieram à tona.

Nasci de um relacionamento extra-conjugal de meu pai com minha mãe, quando eles se encontraram em Portugal no ano de 1973. Meu pai era angolano e havia ido a Portugal para resolver assuntos de trabalho, na época ele estava com trinta anos, já era casado e tinha dois filhos. Minha mãe, brasileira, havia ido a Portugal para visitar seus avós paternos. Nessa época minha mãe estava com vinte e três anos. A primeira vez em que os dois se encontraram foi na casa de meus avós. Meu pai era muito amigo de um de meus tios, ele havia ido na casa de meus avós para levar algumas encomendas de meu tio Jorge.

O tio Jorge era muito amigo de meu pai. Assim que meu pai entrou na casa de meus avós, minha mãe disse que sentiu algo de diferente. Ao ser apresentada para aquele homem moreno de cabelos encaracolados e olhos melancólicos, minha mãe disse que se apaixonou. O tio fez as apresentações dizendo: Meu caro amigo Diogo, está moça linda que aqui está, é minha sobrinha querida, é a única filha de meu irmão Alfredo. Minha mãe, disse que meu pai ao cumprimentá-la, sorriu e disse : Você tem razão, amigo Jorge, sua sobrinha é muito linda.

Os dias passaram e minha mãe não conseguia esquecer aquele homem. Ela sabia que ele era casado e tinha filhos, portanto não podia esperar nada daquele homem. Mas no fundo de seu coração esperava que algo acontecesse. E aconteceu. Certo dia, minha mãe andava pelas ruas de Lisboa a procura de um tecido especial para fazer um vestido novo. Ao entrar na loja de tecidos ela vê aquele homem que lhe causou tanto encantamento. Ao vê-la, ele lhe cumprimenta e sorri dizendo: Que boa surpresa ver a moça por aqui. Minha mãe disse que estremeceu todinha, e por um momento pensou em não ser tão atenciosa e ir embora bem rápido, mas não teve tempo, meu pai lhe disse: Fico mais vinte dias por aqui, depois vou embora para Angola, vim comprar as encomendas de minha esposa. Parto, mas já sinto falta dessa terra. Então minha mãe respondeu: Mas logo você retornará, não tens negócios aqui!
Ele disse: Não sei, em Angola as coisas não estão muito bem, não sei quando volto. Mas podemos sair daqui e conversar um pouco em algum lugar. Então, minha mãe respondeu que sim. Saíram dali e foram para uma praça, conversaram muito. Ela ficou sabendo que ele era um homem com muitas responsabilidades em seu país. Era um homem que vivia para o trabalho e a família. Ao se despedirem combinaram de se encontrar novamente, antes que ele fosse embora para Angola.

Minha mãe disse que era muito forte o que ela sentia por meu pai. Ela sabia que podia se controlar, porque não era só desejo por ele, mas era algo que dominava todo o seu ser.
No dia do encontro, ela pensou em não ir, mas acabou indo, ela disse que inventou mil coisas, mas que na hora H, saiu para o encontro e não pensou em mais nada.
Chegando no local combinado, eles se cumprimentaram e ficaram por muitas horas conversando, mas num determinado momento meu pai disse que queria beijá-la, ela concordou. Daí para o restante foi só um pulo. Ficaram juntos até o anoitecer. Ao se despedirem juraram se encontrar novamente. E aconteceram outros encontros, até o dia em que ele partiu para sua terra. Fizeram promessas de escrever um para o outro, mas depois que ele partiu, minha mãe percebeu que estava grávida, então fez um juramento de encerrar aquela história para sempre. Ele procurou por minha mãe, mas ninguém nunca revelou o paradeiro dela para meu pai. Ele esteve muitas outras vezes em Portugal, mas os parentes de minha mãe nunca tocaram nesse assunto com ele. Meu pai morreu em 2002, sem saber que teve uma filha com uma brasileira. Minha mãe me disse que depois que soube que estava grávida, sentiu remorso por ter se deitado com o meu pai, porque ele tinha uma família e parecia amar sua esposa, ela disse que se sentiu suja, por isso não queria revelar nada para ninguém, ela não queria estragar a vida daquela família.

Quando minha mãe voltou ao Brasil, teve que revelar que estava grávida para meus avós. Os pais dela quase tiveram um ataque, e trataram de inventar uma estória para que minha mãe não ficasse mal falada. Então inventaram que ela havia namorado uma pessoa e iria se casar, mas o namorado morreu em consequência de uma doença grave. Ela ficou grávida e teve que arcar com muitos falatórios, mas depois de um certo tempo tudo se acalmou. Mudaram para uma outra cidade em que ninguém os conhecia, lá eu nasci e fui criada. Minha mãe sempre se manteve um pouco distante de mim, eu não me sentia sua filha. Meus avós me tratavam como filha.

Minha mãe se casou e teve outros filhos, eu fiquei morando com meus avós. Os anos se passaram e certo dia minha mãe adoeceu gravemente, eu fui cuidar dela. Por ser formada em enfermagem me senti na obrigação de lhe fazer companhia naquele momento de dor, e foi então que ela sentiu-se na obrigação de revelar o meu passado. Fiquei um pouco chateada, mas depois até que gostei, afinal de contas fui uma pessoa bem criada e o que havia acontecido com minha mãe era de responsabilidade dela. Antes de falecer em 2008, minha mãe me entregou duas cartas que meu pai enviou para ela, mas ela nunca respondeu. Ela disse que eu deveria me comunicar com o tio Jorge, ele poderia me revelar algumas coisas sobre meu pai, caso eu me interessasse em saber mais.

Há cerca de uma ano, fiz uma viagem ao meu passado, estive em Portugal, conversei muito com o tio Jorge, ele me revelou coisas maravilhosas. Ele disse que meu pai sabia que tinha uma filha no Brasil. Ao contrário do que minha mãe queria, o tio revelou ao meu pai os fatos de minha vida, recebi das mãos do tio Jorge, uma caixa repleta de fotos e cartas de meu pai, todas direcionadas a mim. Em uma das cartas meu pai diz que não me procurou por respeito a minha mãe, mas que de longe ele me acompanhava através dos relatos do tio Jorge. Recebi até uma pequena herança em dinheiro, mas para mim o que valeu mesmo foi saber que meu pai me conhecia.

Estive em Angola no mês de janeiro deste ano, fiquei lá por vinte dias, pude ver os lugares onde meu pai viveu e até conheci pessoas de sua família e amigos também, mas preferi deixar tudo como está. Porque o bom mesmo é ter uma história para contar.
lita duarte

Att. foram trocados todos os nomes para que ninguém seja incomodado.