ESTÓRIAS...

ESTÓRIAS...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O PROFESSOR

Quando Laura ia à casa do professor Antunes, para aplicar injeções em sua mãe, eu ia junto com ela.
O professor morava em uma casa bem grande, ele era solteiro e cuidava de sua mãe.
Na casa havia uma linda biblioteca, os livros eram todos bem organizados por nomes. O professor era uma pessoa extremamente organizada. Ele era muito considerado lá na cidade, era um professor querido. Muitas moças morriam de vontade de namorar com ele, até mesmo a Laura. Toda vez que íamos à casa do professor, Laura se arrumava toda, passava perfume e vestia uma roupa bem bonita só porque iria ver o professor. Ele sempre estava em casa no horário em que marcava para Laura aplicar injeções em sua mãe. Ele adorava a mãe, mas ficava muito triste porque ela estava muito doente, diziam que era aquela doença! É, naquela época as pessoas tinham medo de pronunciar a palavra câncer. O professor falava comigo normalmente o que a mãe dele tinha, ele dizia que as pessoas não podiam viver na ignorância. Às vezes, ele falava umas palavras muito difíceis, então eu perguntava para ele o que era aquilo que ele estava falando. Ele costumava dar muitas risadas comigo, porque eu perguntava tudo!
Acho que ele sentia falta de ter filhos, ele era tão sozinho.

Um dia, o professor teve que sair da cidade. Nessa época a mãe dele já havia morrido e Laura já havia se casado com um primo distante.
Diziam que o professor precisava viajar pra longe, porque ele estava sendo perseguido por não concordar com muitas coisas erradas que ocorriam em nosso país.
Eu não entendia nada, mas ouvia o zum-zum-zum. Eu percebia muitas coisas estranhas, mas quando a gente é criança deve ser poupada de assuntos complicados, meus pais tinham muito cuidado em falar certos assuntos na minha frente.

Passaram-se meses e meses. Um dia, o professor voltou, mas já não era o mesmo.
Diziam que ele havia sofrido muito, por isso estava tão diferente. Ele foi ficando cada vez mais isolado e triste, poucas pessoas o visitavam. Aquele foi um período brabo na história, 1968 um ano terrível...

O professor adoeceu, meu pai foi visitá-lo e eu fui junto com ele. Era triste ver aquele homem naquele estado de fragilidade ali, naquela cama. Mas ele ficou feliz em nos ver, lembrou das minhas perguntas e sorriu. Antes de irmos embora, ele me disse para escolher um livro lá na biblioteca. Fui até lá, peguei o livro Guerra e Paz de Leon Tolstoi, ele olhou para mim e falou: Menina, esse livro agora é seu, cuide bem dele, leia com atenção – não agora, quando você for mais velha - sabe de uma coisa, você escolheu um bom livro, faça bom proveito dele.
Eu e meu pai nos despedimos do professor e fomos embora. Não sabíamos que aquela seria a última vez que víamos o professor.

lita duarte