ESTÓRIAS...

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terça-feira, 31 de agosto de 2010

AO SOM DO LED, BASQUETE E BOMBAS DE CHOCOLATE

O Carlão era um menino de dezesseis anos, quando eu o conheci.
Ele jogava basquete e gostava do Led Zepellin.

Quando eu estava no colegial, - era assim que se dizia quando uma pessoa estava no ensino médio em 1975. Bem, nessa época eu conheci o Carlão.
Eu estava tentando fazer umas cestas, jogando basquete com dois meninos mais velhos que eu. Nessa época eu estava com quinze anos e adorava basquete. Era difícil encontrar alguém que jogasse comigo. As meninas não queriam saber de esporte, e quando se interessavam, queriam jogar vôlei.
Jogar com os meninos era complicado, porque eles se achavam os maiorais, eu tinha que me desdobrar ao máximo para ser aceita no jogo. Minha sorte mudou naquele dia. Os meninos estavam me sacaneando. Quando passavam a bola pra mim, jogavam com tanta força para me machucar. De repente, eu ouvi um vozeirão e quando virei para pegar a bola, vi um menino grandão dizendo assim: Dinho, seu mané, passa essa bola pra mim, se passar mal, eu vou distribuir porrada. Entendeu!
Os meninos falaram baixinho: O Carlão voltou, ferrou! Ele estava estudando à noite, já mudou de turno outra vez!
O Carlão se aproximou de mim e disse: Agora o bicho vai pegar! Os meninos riram pensando que o Carlão estava zoando com a minha cara, mas que nada, ele estava mandando um recado que queria dizer que estava do meu lado. Ele me disse: Se liga pequena, vou te passar a bola.
Bem, a partir desse dia eu e Carlão fizemos uma parceria.

O Carlão era um encrenqueiro, ele tinha talento de sobra para o basquete, mas arrumava muita confusão.
A gente se encontrava todos os dias para jogar e conversar. Nas conversas rolavam os maiores planos.
O Carlão dizia que um dia ele iria comprar uma moto pra gente viajar pela América Latina, a gente iria até a Argentina visitar o tio dele. Também iríamos à Londres assistir um show do Led Zepellin.
Pobre Carlão conversava comigo durante horas, me dava dicas de basquete, me ensinava a fazer os passes, quebrava o pau com os meninos por minha causa, mas quando ele entrava na depressão, era uma tristeza.

Certa vez, em uma conversa com o Carlão, eu disse que ele devia procurar um médico, o problema dele devia ter tratamento, mas o Carlão respondia que se ele fosse procurar um médico, o médico iria dizer que ele era um veado, uma bicha e coisas desse tipo. Naquele tempo, infelizmente não se diagnosticava a depressão da maneira como é nos dias de hoje. Antigamente, um homem só procurava um médico, quando já estava muito mal.

Quando o Carlão entrava em crise, ele sumia da escola, perdia os testes em clubes, ficava dias sem ver ninguém. Eu insistia, passava quase todos os dias na casa dele, entrava e batia na porta do quarto que ele mantinha fechada. A mãe dele me dizia que ele nem se alimentava direito. Eu falava pra ela procurar ajuda, mas tudo era tão complicado...
Muitas vezes, eu ficava conversando com o Carlão, ele lá dentro do quarto jogado na cama e eu do lado de fora com as costas na porta. Eu ficava dizendo que ele estava me fazendo falta, eu precisava dele para treinar e para ouvir o Led, porque ouvir o Led só tinha graça com o ele. Às vezes o Carlão me ouvia, então abria a porta do quarto e dizia: Pequena, amanhã nós vamos jogar e depois vamos ouvir o Led, também vamos comprar bombas de chocolate para acompanhar o som. Amanhã, tá bom! Eu respondia que sim, e ia embora.
No dia seguinte o Carlão aparecia, então era a maior festa. Jogávamos e depois íamos comprar as bombas de chocolate e seguíamos para a casa dele, ficávamos na varanda ouvindo o Led e fazendo nossos planos de viagens, enquanto saboreávamos as bombas de chocolate.

Um dia, Carlão entrou numa crise muito brava. Ele havia perdido um tio. Aquilo pesou demais. Carlão se fechou de vez, ninguém conseguia ajudá-lo. Os dias foram passando... Um dia, não aguentei e fui à casa dele e bati naquela porta do quarto dele com tanta força, que machuquei a mão. Eu disse que se ele não abrisse a porta, eu a derrubaria. Ele abriu à porta, então eu gritei com ele, disse que ele estava querendo morrer, falei dos nossos planos, falei que não havia jeito de trazer o tio dele de volta. Falei que não tinha graça nenhuma um homem daquele tamanho deixar uma droga de uma doença tomar conta dele.
O Carlão olhou pra mim e disse assim: Tá bom, pequena, já entendi, vou tomar um banho depois a gente vai comer bomba de chocolate. Muitas! Porque eu tô morrendo de fome.
Aquele foi um dia de vitória, vencemos uma batalha.



lita duarte