ESTÓRIAS...

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sábado, 27 de março de 2010

O FURO NO TETO DE MADEIRA

Como chovia naquele janeiro. Cheguei à fabulosa São Paulo, debaixo de água.
Fui para o Flat, queria chegar logo e tomar um banho e me jogar na cama com meu companheiro de guerra: meu computador, amigo inseparável. Queria começar a escrever a estória encomendada por um grande amigo. Mas que nada. Aconteceram coisas muito estranhas.

O Flat, que simpático. Fiquei no último andar, cobertura duplex, espaço à vontade, paredes brancas, sala e quarto amplos, uma escada preta em forma de serpente, uma vista maravilhosa.

A cama espaçosa, ideal para eu me esparramar com meu companheiro.
Depois do banho me joguei na cama nu e feliz, finalmente poderia gozar de momentos prazerosos e muito só, assim como gosto de ser. Ouvindo os ruídos dos carros, dos aviões e do vento.

Jogado sobre um edredom branco e perfumado fechei os olhos e não pensei em nada, adormeci. Na madrugada o frio entrava pela porta da varanda que eu havia deixado aberta. Levantei, fechei a porta deitei na cama e olhei para o teto, então reparei que era um belo teto de madeira, fiquei olhando para ele sem pensar em nada, de repente percebi que havia um furo nele, olhei bem e pensei: pra que esse furo no teto.
Minha imaginação voou, comecei a pensar em mil coisas...

No dia seguinte sai bem cedo para sentir a cidade, caminhei por suas avenidas largas e congestionadas de carros. Entrei num mercado e comprei leite, pão e café. Ah, café não podia faltar para quem iria varar madrugadas escrevendo em companhia daquele furo no teto.
Ele não me saia da cabeça. Sou viciado em café, ainda bem que não fumo. O furo no teto. Ainda subiria lá no alto para ver o que havia por lá.

Os dias foram passando, fui me envolvendo com a cidade e a escrita do livro. Certa noite, numa madrugada chuvosa eu estava na fúria de escrever, mas o furo... Olhei para ele e ele olhou para mim. Cismei e fui lá ver o que é que havia no alto. Havia uma salinha, a porta estava aberta entrei. Então escutei um miado, olhei do lado e vi um gato rajado de cinza e preto. O danado se esfregava nas minhas pernas, me abaixei e peguei o bichano no colo. Levei-o comigo para o apartamento e chegando lá ofereci a ele um pouco de leite.
O danado tomou todo o leite, devia estar com muita fome. Depois subiu a escada e foi parar no meu quarto, parecia que ele procurava alguma coisa. De repente ele olhou para o teto e miou. Fiquei arrepiado, pensei: que gato é esse, miando para o teto. Depois disso ele saiu correndo foi parar na porta de entrada da minha sala, parecia que precisava ir embora com urgência. Eu, mais que depressa abri a porta para o gato sair.

O furo já estava me dando nos nervos, então assim que um novo dia nasceu eu voltei lá em cima para ver ver o que havia por lá. Fiquei surpreso com o que vi. Era uma cena muito linda, o gato rajado de cinza e preto não era gato e sim uma gata. Ela estava deitada e amamentava três gatinhos. Agora entendo porque ela quis sair bem rápido do meu apartamento, estava na hora dela dar cria.

Aquele furo no teto de madeira me mostrou uma cena inesquecível. Mas mandei um carpinteiro reformar o teto, não queria ter surpresas e precisava me concentrar no livro do meu amigo.
Escrevi o livro, mas meu amigo deixou na gaveta, acho que ele não gostou do nome e nem da estória: Gata em teto de madeira.


lita duarte